quarta-feira, 10 de outubro de 2012
DOIS LEMBRETES PRECIOSOS SOBRE NETWORKING
Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo,
outubro de 2012.
O caderno
“Empregos” de “O Estado de São Paulo” traz neste último domingo uma matéria falando
de networking[1],
no qual chamam desde logo a atenção duas reflexões feitas por um dos
especialistas consultados pela reportagem, José Augusto Minarelli, presidente
da Lens & Minarelli e um dos mais experientes e competentes profissionais
dessa área: uma de suas reflexões versa sobre a questão da escuta ativa em
networking; a outra, sobre a reciprocidade.
Quanto ao
primeiro aspecto, Minarelli menciona um fato que muitas vezes passa
despercebido para a maioria das pessoas: a muitos falta a habilidade de
simplesmente ouvir o outro: “Hoje, o
que se vê é o ímpeto que as pessoas têm de falar”, ele adverte. “Muitas
conversas são disputas de quem quer falar mais.”
Quanto ao segundo
aspecto, Minarelli ressalta que, para sua rede de contatos funcionar efetivamente
e para que você consiga que outras pessoas contribuam para o deseja delas, é
necessário que também você esteja pronto a contribuir com essas pessoas. “É
preciso que as relações ocorram em uma via de mão dupla”, lembra ele, “na qual
a pessoa pede ajuda e também está disposta a ajudar. É isso que fortalece os
laços; é assim que se monta uma rede sólida”.
As advertências
de Minarelli não são fortuitas; ao contrário, elas têm profundas raízes nas
ciências humanas: no primeiro caso, na psicologia, quando aborda o capítulo da
cognição e, neste, o tópico da atenção; no segundo, na antropologia, ao falar
da troca e da reciprocidade.
Sobre a escuta
ativa, falta espaço para citar mais de uma entre as muitas referências
possíveis – razão por que vamos nos ater apenas ao que diz o psicanalista
holandês e professor do Insead, Erik van de Loo: “Quem ouve cuidadosamente o
que outra pessoa fala não está apenas recebendo informação”, diz ele, “mas, da
mesma forma, procurando continuamente extrair sentido daquilo que ouve. Isto é
influenciado por nossa capacidade de entender que o comportamento é causado
pelos chamados estados de espírito inobserváveis (sonhos, necessidades,
desejos, sentimentos, ideias, esperanças, temores, ilusões etc.) e de
reconhecer que o estado de espírito de outra pessoa pode ser diferente do
nosso.”
[2]
van de Loo
chama de “mentalização” a esta capacidade, sugerindo que se trata de uma
habilidade cognitiva que inclui também a capacidade de reflexão do indivíduo; e
que ainda incorpora (mas vai além) o uso das faculdades da empatia e da intuição.
Sobretudo, diz van de Loo, “ouvir outras pessoas pressupõe e incorpora ouvir a
si mesmo. O outro, e sua narrativa, ressoa no eu.” [3] Quem ouve o outro, portanto, está
ouvindo ao mesmo tempo a si próprio, e os insights que tem sobre si são, no
fundo, uma medida de que está, de fato, atento ao que o outro diz.
Quanto ao nosso
segundo tema, provavelmente o antropólogo que mais profundamente falou da reciprocidade
foi Marcel Mauss, em seu clássico “Ensaio sobre a dádiva” [4]. Nas mais de 100 páginas que compõem esse
ensaio, Mauss descreve a obrigação moral de se “dar de volta” quando se recebe
algo, como sendo um dever que muitas vezes beira o sagrado, e isso em
sociedades tão diversas quanto os samoanos e os maori da Polinésia, os nativos
da Nova Caledônia e outros povos melanésios, bem como em sociedades indígenas
do território norte-americano. Como se não bastasse, ele recupera o mesmo
costume em antigos povos indo-europeus, assim como no direito hindu clássico, nos
direitos germânico, celta, chinês e, inclusive, romano. Citando o “Havamál”, um
dos velhos poemas do “Eda” escandinavo, Mauss reproduz algumas estrofes, entre
as quais esta: “Com armas e vestimentas / os amigos devem se obsequiar; / cada
um o sabe por si mesmo. / Os que se dão mutuamente presentes / são amigos por
mais tempo / se as coisas conseguem encaminhar bem. // Deve-se ser um amigo /
para seu amigo / e retribuir presente por presente; / deve-se ter / riso por
riso / e fraude por mentira.” [5]
Na conclusão do
ensaio, diz o sociólogo francês: “É possível estender essas observações a
nossas sociedades. Uma parte considerável de nossa moral e de nossa própria
vida permanece estacionada nessa mesma atmosfera em que dádiva, obrigação e
liberdade se misturam.” [6]
[1] Leandro Costa, “Contatos podem ser chave para a recolocação”, OESP,
Cad. “Empregos”, edição de domingo, 7 de outubro de 2012, p. 4.
[2] Erik van de Loo, “A arte de ouvir”. In: Manfred F. R. Kets de
Vries et al. (orgs.),
“Experiências e técnicas de coaching”, Porto Alegre/São Paulo, Bookman/Insead,
2009, pp. 269-186 (trad. Raul Rubenich).
[3] E. van de Loo, op.
cit., p. 284.
[4] Marcel Mauss, em “Année Sociologique, 1ª. série, vol. 1, 1925.
Reproduzido em Marcel Mauss, “Sociologia e antropologia”, São Paulo, Cosac
& Naify, 2003, pp. 185-314 (trad. Paulo Neves).
[5] M. Mauss, op. cit.,
p. 186.
[6] M. Mauss, op. cit.,
p. 294.
CRIANDO SEU PORTFÓLIO DE TRABALHO
Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo,
outubro de 2012.
No programa
OPUS 21 da Casa do Gestor, consideramos a divisão da vida adulta em quatro
etapas, do ponto de vista do exercício profissional, conforme foi proposto pela
socióloga americana Gail Sheehy: as fases Preparatória (dos 18 aos 30 anos de
idade), da Plenitude (30 a 45 anos), da Senioridade (45-65 anos) e da Sabedoria
(acima dos 65 anos).
O modelo de
aconselhamento de carreira que utilizamos no OPUS 21 baseia-se na constatação
empírica de que, a partir do início da fase da Senioridade, vai se tornando cada
vez mais difícil para o trabalhador manter-se ativo no mercado de trabalho mediante
o vínculo com uma única empresa, por meio de um contrato de trabalho
convencional em tempo integral. O que se constata é que, em grande parte dos
casos, o profissional passa, a partir de então, a assumir projetos mais flexíveis,
de duração mais breve e baseados em vínculos mais tênues com seus contratantes.
Se isso pode ser assustador para alguns, pode também significar para outros um
grau de liberdade e uma oportunidade de realização profissional que jamais
teriam experimentado de outra forma.
No portfólio de
trabalho que então passa a orientar a vida profissional dessa pessoa, vários
“mini-empregos” se sucedem ou acontecem simultaneamente, com a particularidade
de que, quase sempre, nenhum deles é suficiente para proporcionar uma
remuneração condizente com suas expectativas. Ainda assim, o trabalhador poderá
obter ganhos plenamente satisfatórios (e, não raro, maiores do que antes) no
somatório dos trabalhos incluídos em seu portfólio. Embora na prática isto seja
mais fácil de dizer do que de fazer, espera-se que essa mudança acabe sendo encarada
com naturalidade pelo trabalhador, uma vez que se tornará uma regra, em vez da exceção,
em sua trajetória profissional daí por diante.
É evidente que,
para ser capaz de desenvolver um tal portfólio, o trabalhador precisará de desenvolver
continuamente novas competências profissionais, bem como contar com ativos que
apoiem sua busca de oportunidades de trabalho – entre os quais é fundamental manter
um network que lhe abra possibilidades concretas de atuação no mercado. Isso,
que tampouco é fácil de fazer, requer que o trabalhador adote uma nova atitude profissional,
ressaltada por permanente desenvolvimento pessoal e profissional e um agudo
interesse pelas tendências e transformações por que passe seu contexto de
trabalho.
Um caso
simples, entre muitos disponíveis, pode nos servir de exemplo: referimo-nos a
uma reportagem publicada recentemente no jornal “O Estado de São Paulo”(*),
dando conta de que um publicitário de 37 anos de idade decidiu “trocar a
estabilidade de uma carreira pelas incertezas da profissão de escritor”.
Segundo explica a notícia, ele deixou seu emprego regular na agência, passando,
entretanto, a prestar serviços a ela como consultor – enquanto ao mesmo tempo começou a dedicar-se a um site que lançou,
chamado Loja de Histórias. Ali, sua proposta consiste em redigir e postar pequenos
contos ou crônicas inspirados em fotos que os frequentadores do site lhe
enviam. Sua meta era a escrever um texto por dia; porém, em poucos dias ele já recebeu
quase 300 fotos, o ou levou à conclusão de que teria de acelerar mais sua produção
literária.
Como se pode
ver, trata-se de um projeto bastante original, que demonstra um alto grau de sensibilidade
pessoal por parte de seu criador. Ainda assim, a notícia não fala sobre algo
muito importante: Como pretende esse publicitário ganhar dinheiro com sua nova
atividade? Uma primeira sugestão poderia ser esta: ele estaria de fato se lançando
como escritor, planejando publicar em breve um livro de contos ou crônicas
baseados em seus textos sobre as fotos recebidas.
Entretanto, há
outras possibilidades mais: além de estar fazendo aquilo que gosta, esse
publicitário está também aprendendo (e de forma quase imperceptível) sobre
crítica fotográfica – o que poderá lhe abrir, mais tarde, outras possibilidades
concreta de trabalho e remuneração. Porém, também seu trabalho como
publicitário talvez venha a ter um crescimento, uma vez que ele está produzindo
peças literárias de ficção sobre os temas das fotografias recebidas, o que se aproxima
bastante do que faz um publicitário que cria uma peça para uma campanha. Finalmente,
não nos esqueçamos de que o “storytelling” é um recurso cada vez mais bem
aceito e praticado em marketing, publicidade e branding, e que também nessa
área ele está aprofundando sua expertise.
E, quem sabe,
pode ser até mesmo que seu site venha a ganhar uma tal projeção e receba tal
quantidade diária de visitantes que algumas empresas se interessem em
patrociná-lo, usando-o como veículo de publicidade online. Deixamos para o
leitor a tarefa de imaginar outras possíveis incorporações ao portfólio de
trabalho desse publicitário.
(*) Edison Veiga, “Você tira uma foto e ele inventa uma história”, “O
Estado de São Paulo”, caderno “Cidades/Metrópole”, edição de domingo, 7 de
outubro de 2012, p. C4.
domingo, 7 de outubro de 2012
A “DONA DA PERFORMANCE”
Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa
do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.
Em postagem
anterior, estabeleci um paralelo entre duas artistas de grande sucesso na TV e
no rádio: Hebe Camargo no Brasil e, alguns anos atrás, Laura Schlessinger (a
Dra. Laura), no rádio norte-americano.
Minha intenção
foi mostrar que a maravilhosa integração identitária conseguida em seus
respectivos trabalhos por essas profissionais de sucesso tinha claramente a ver
– na melhor interpretação da tese de Mark L. Savickas sobre carreiras
profissionais – com o encontro perfeitamente harmônico, em cada caso, entre o
Self da pessoa e o papel social que a sociedade lhe ofereceu.
Quero agora me
remeter a um caso equivalente, ainda de uma artista, desta vez a “performer”
nascida na ex-Iugoslávia, Marina Abramovic. Os dados em que me baseio estão
contidos em matéria recente da imprensa (*), que transcrevo
parcialmente:
P
“Ela é o maior
nome da performance no mundo. Marina Abramovic foi a grande atração do Festival
do Rio na quinta-feira. Veio mostrar o documentário sobre sua retrospectiva no
MoMa, de Nova York. Chama-se ‘Marina Abramovic – Artista presente’ e o diretor
é Matthew Akers. (...)
Marina veio muitas
vezes ao Brasil. (...) Recentemente esteve em Iporanga e Curitiba. Conheceu uma
xamã. A mulher (...) dizia coisas sobre ela, mesmo sem saber quem era. Disse
que era de outra galáxia e que sua missão na Terra era fazer com que as pessoas
transcendessem à dor.
‘Artista
presente’ é um pouco sobre isso. Marina selecionou artistas para reproduzirem
suas performances clássicas. Ela própria ficou sentada durante três meses, de
manhã à noite, no salão principal do MoMa. Num mundo em movimento, em que as
pessoas correm freneticamente, ela propôs uma drástica parada. Mais de 750 mil
pessoas sentaram-se diante dela, magnetizadas pela força daquele olhar. Muitas
delas não resistem, e choram. Por que choram esses homens e mulheres, as
crianças? O rosto hierático [de Marina] expressa nada.
Ela repassa a
própria biografia, o que também está no documentário de Matthew Akers. Nascida
na antiga Iugoslávia do marechal Tito, é filha de dois militantes comunistas
que a criaram com dura disciplina. Marina não se lembra de alguma vez ter
recebido um abraço, uma manifestação de carinho da mãe. As manifestações de
amor vieram da avó materna, uma mística que abriu um outro mundo para a garota.
Ela se define como produto dessa divisão.
Sabe-se que a
performance é entrega – visceral. Mas também é polêmica. Tem gente que acha que
aquilo não é arte. O mal-entendido sempre a acompanhou e Marina revela que
apenas nos últimos dez anos conseguiu ganhar dinheiro ‘para pagar as dívidas e
viver com conforto’. O essencial é outra coisa. O salto sem rede. O
arriscar-se. O testar seus limites. O encontro com o outro. (...)
De volta a
Serra Pelada, ela diz que ainda sonha com aquilo. (...) ‘Aquilo era grandioso.
Os caras se matavam pelo ouro e não usufruíam a riqueza.’ Uma trágica metáfora do
mundo moderno, reflete.”
P
O relato acima sugere
uma trajetória de infância, decisiva para a produção do Self de Marina, que
espelha incrivelmente bem o que ela escolheu fazer na vida e que faz tão
competentemente. Dos pais, fonte da qual a criança espera receber amor e
carinho, chegaram a Marina, ao contrário, sofrimento, cobrança e dura
disciplina. Felizmente a avó, temperando-o com misticismo, lhe deu o necessário
afeto.
Marcada por
essa divisão intransponível, Marina conseguiu – apesar disso ou, quem sabe, por
causa disso – encontrar-se numa impressionante narrativa de carreira: a de uma
performer que se entrega visceralmente a cada projeto que empreende; que
polemiza e desafia as pessoas o tempo todo; e que se oferece a elas como um espelho
absolutamente franco, para que enxerguem nela a verdade nua e crua sobre suas próprias
existências e sejam obrigadas a refletir sobre a imagem que veem. Cada
apresentação de Marina é uma única e declarada representação da necessidade (e
da impossibilidade) de as pessoas conciliarem dor e amor, verdade e hipocrisia,
arte e vida. E, nisso, ela é imbatível, graças ao Self que desenvolveu.
Assinar:
Postagens (Atom)