domingo, 7 de outubro de 2012

A “DONA DA PERFORMANCE”


Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa 
do Gestor. São Paulo,       outubro de 2012.

Em postagem anterior, estabeleci um paralelo entre duas artistas de grande sucesso na TV e no rádio: Hebe Camargo no Brasil e, alguns anos atrás, Laura Schlessinger (a Dra. Laura), no rádio norte-americano.

Minha intenção foi mostrar que a maravilhosa integração identitária conseguida em seus respectivos trabalhos por essas profissionais de sucesso tinha claramente a ver – na melhor interpretação da tese de Mark L. Savickas sobre carreiras profissionais – com o encontro perfeitamente harmônico, em cada caso, entre o Self da pessoa e o papel social que a sociedade lhe ofereceu.

Quero agora me remeter a um caso equivalente, ainda de uma artista, desta vez a “performer” nascida na ex-Iugoslávia, Marina Abramovic. Os dados em que me baseio estão contidos em matéria recente da imprensa (*), que transcrevo parcialmente: 

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“Ela é o maior nome da performance no mundo. Marina Abramovic foi a grande atração do Festival do Rio na quinta-feira. Veio mostrar o documentário sobre sua retrospectiva no MoMa, de Nova York. Chama-se ‘Marina Abramovic – Artista presente’ e o diretor é Matthew Akers. (...)

Marina veio muitas vezes ao Brasil. (...) Recentemente esteve em Iporanga e Curitiba. Conheceu uma xamã. A mulher (...) dizia coisas sobre ela, mesmo sem saber quem era. Disse que era de outra galáxia e que sua missão na Terra era fazer com que as pessoas transcendessem à dor.

‘Artista presente’ é um pouco sobre isso. Marina selecionou artistas para reproduzirem suas performances clássicas. Ela própria ficou sentada durante três meses, de manhã à noite, no salão principal do MoMa. Num mundo em movimento, em que as pessoas correm freneticamente, ela propôs uma drástica parada. Mais de 750 mil pessoas sentaram-se diante dela, magnetizadas pela força daquele olhar. Muitas delas não resistem, e choram. Por que choram esses homens e mulheres, as crianças? O rosto hierático [de Marina] expressa nada.

Ela repassa a própria biografia, o que também está no documentário de Matthew Akers. Nascida na antiga Iugoslávia do marechal Tito, é filha de dois militantes comunistas que a criaram com dura disciplina. Marina não se lembra de alguma vez ter recebido um abraço, uma manifestação de carinho da mãe. As manifestações de amor vieram da avó materna, uma mística que abriu um outro mundo para a garota. Ela se define como produto dessa divisão.

Sabe-se que a performance é entrega – visceral. Mas também é polêmica. Tem gente que acha que aquilo não é arte. O mal-entendido sempre a acompanhou e Marina revela que apenas nos últimos dez anos conseguiu ganhar dinheiro ‘para pagar as dívidas e viver com conforto’. O essencial é outra coisa. O salto sem rede. O arriscar-se. O testar seus limites. O encontro com o outro. (...)

De volta a Serra Pelada, ela diz que ainda sonha com aquilo. (...) ‘Aquilo era grandioso. Os caras se matavam pelo ouro e não usufruíam a riqueza.’ Uma trágica metáfora do mundo moderno, reflete.”

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O relato acima sugere uma trajetória de infância, decisiva para a produção do Self de Marina, que espelha incrivelmente bem o que ela escolheu fazer na vida e que faz tão competentemente. Dos pais, fonte da qual a criança espera receber amor e carinho, chegaram a Marina, ao contrário, sofrimento, cobrança e dura disciplina. Felizmente a avó, temperando-o com misticismo, lhe deu o necessário afeto.

Marcada por essa divisão intransponível, Marina conseguiu – apesar disso ou, quem sabe, por causa disso – encontrar-se numa impressionante narrativa de carreira: a de uma performer que se entrega visceralmente a cada projeto que empreende; que polemiza e desafia as pessoas o tempo todo; e que se oferece a elas como um espelho absolutamente franco, para que enxerguem nela a verdade nua e crua sobre suas próprias existências e sejam obrigadas a refletir sobre a imagem que veem. Cada apresentação de Marina é uma única e declarada representação da necessidade (e da impossibilidade) de as pessoas conciliarem dor e amor, verdade e hipocrisia, arte e vida. E, nisso, ela é imbatível, graças ao Self que desenvolveu. 


(*) Luiz Carlos Merten, em “Dona da performance”, “O Estado de São Paulo”,
     6/10/2012, p. D16.   

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