Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa
do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.
Em postagem
anterior, estabeleci um paralelo entre duas artistas de grande sucesso na TV e
no rádio: Hebe Camargo no Brasil e, alguns anos atrás, Laura Schlessinger (a
Dra. Laura), no rádio norte-americano.
Minha intenção
foi mostrar que a maravilhosa integração identitária conseguida em seus
respectivos trabalhos por essas profissionais de sucesso tinha claramente a ver
– na melhor interpretação da tese de Mark L. Savickas sobre carreiras
profissionais – com o encontro perfeitamente harmônico, em cada caso, entre o
Self da pessoa e o papel social que a sociedade lhe ofereceu.
Quero agora me
remeter a um caso equivalente, ainda de uma artista, desta vez a “performer”
nascida na ex-Iugoslávia, Marina Abramovic. Os dados em que me baseio estão
contidos em matéria recente da imprensa (*), que transcrevo
parcialmente:
P
“Ela é o maior
nome da performance no mundo. Marina Abramovic foi a grande atração do Festival
do Rio na quinta-feira. Veio mostrar o documentário sobre sua retrospectiva no
MoMa, de Nova York. Chama-se ‘Marina Abramovic – Artista presente’ e o diretor
é Matthew Akers. (...)
Marina veio muitas
vezes ao Brasil. (...) Recentemente esteve em Iporanga e Curitiba. Conheceu uma
xamã. A mulher (...) dizia coisas sobre ela, mesmo sem saber quem era. Disse
que era de outra galáxia e que sua missão na Terra era fazer com que as pessoas
transcendessem à dor.
‘Artista
presente’ é um pouco sobre isso. Marina selecionou artistas para reproduzirem
suas performances clássicas. Ela própria ficou sentada durante três meses, de
manhã à noite, no salão principal do MoMa. Num mundo em movimento, em que as
pessoas correm freneticamente, ela propôs uma drástica parada. Mais de 750 mil
pessoas sentaram-se diante dela, magnetizadas pela força daquele olhar. Muitas
delas não resistem, e choram. Por que choram esses homens e mulheres, as
crianças? O rosto hierático [de Marina] expressa nada.
Ela repassa a
própria biografia, o que também está no documentário de Matthew Akers. Nascida
na antiga Iugoslávia do marechal Tito, é filha de dois militantes comunistas
que a criaram com dura disciplina. Marina não se lembra de alguma vez ter
recebido um abraço, uma manifestação de carinho da mãe. As manifestações de
amor vieram da avó materna, uma mística que abriu um outro mundo para a garota.
Ela se define como produto dessa divisão.
Sabe-se que a
performance é entrega – visceral. Mas também é polêmica. Tem gente que acha que
aquilo não é arte. O mal-entendido sempre a acompanhou e Marina revela que
apenas nos últimos dez anos conseguiu ganhar dinheiro ‘para pagar as dívidas e
viver com conforto’. O essencial é outra coisa. O salto sem rede. O
arriscar-se. O testar seus limites. O encontro com o outro. (...)
De volta a
Serra Pelada, ela diz que ainda sonha com aquilo. (...) ‘Aquilo era grandioso.
Os caras se matavam pelo ouro e não usufruíam a riqueza.’ Uma trágica metáfora do
mundo moderno, reflete.”
P
O relato acima sugere
uma trajetória de infância, decisiva para a produção do Self de Marina, que
espelha incrivelmente bem o que ela escolheu fazer na vida e que faz tão
competentemente. Dos pais, fonte da qual a criança espera receber amor e
carinho, chegaram a Marina, ao contrário, sofrimento, cobrança e dura
disciplina. Felizmente a avó, temperando-o com misticismo, lhe deu o necessário
afeto.
Marcada por
essa divisão intransponível, Marina conseguiu – apesar disso ou, quem sabe, por
causa disso – encontrar-se numa impressionante narrativa de carreira: a de uma
performer que se entrega visceralmente a cada projeto que empreende; que
polemiza e desafia as pessoas o tempo todo; e que se oferece a elas como um espelho
absolutamente franco, para que enxerguem nela a verdade nua e crua sobre suas próprias
existências e sejam obrigadas a refletir sobre a imagem que veem. Cada
apresentação de Marina é uma única e declarada representação da necessidade (e
da impossibilidade) de as pessoas conciliarem dor e amor, verdade e hipocrisia,
arte e vida. E, nisso, ela é imbatível, graças ao Self que desenvolveu.
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