Por Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo,
novembro de 2012.
Um filme para ser visto –
Está nas
locadoras um filme muito interessante para ser visto por quem participou do 7º.
módulo do Programa OPUS 21, sobre “Transcendentalidade e o Sentido da Vida”. Chama-se
“O deus da carnificina” (Carnage, no
original), passou recentemente no cinema e está disponível nas locadoras. O
filme é do consagrado diretor polonês Roman Polanski e nele contracenam quatro
atores de primeira linha: Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C.
Reilly.
No filme, dois
casais (Nancy/Alan e Penelope/Michael) se encontram no apartamento destes
últimos, para conversar civilizadamente sobre um incidente desagradável: numa
briga de garotos, o filho de Nancy e Alan agrediu o outro com uma vara,
ferindo-lhe a boca e quebrando-lhe um dente. No início da reunião os quatro
participantes parecem solícitos e socialmente muito apropriados, mas pouco a
pouco vão revelando facetas completamente diferentes dessa e a reunião acaba
num completo desastre social.
O filme, de
2011, é baseado numa peça teatral (Le
Dieu du Carnage) da dramaturga, escritora e atriz francesa Yasmina Reza,
que, juntamente com Polanski, assina o roteiro. Yasmina a escreveu em 2006,
praticamente num só fôlego, numa ocasião em que havia recebido – e recusado,
por sentir-se pouco motivada para isso naquele momento – o pedido de um diretor
alemão para que escrevesse uma peça especialmente para ele encenar.
As origens e a trajetória da peça –
No entanto,
segundo conta a autora numa entrevista, poucos meses depois ela teve uma grande
inspiração, a partir de um episódio fortuito: seu filho de 13 ou 14 anos e um
amigo brigaram com outro garoto e o amigo do filho teve um dente quebrado.
Poucos dias depois, Yasmina encontrou a mãe dele e perguntou como estava o
filho. Ela respondeu que ele tinha precisado fazer uma pequena cirurgia, mas
estava bem; e completou seu comentário dizendo: “Imagine! Os pais do outro menino nem
sequer me telefonaram!” Yasmina
relata que seus olhos brilharam nesse momento e ela pensou: “Este é um tema
incrível!” Imediatamente telefonou ao diretor alemão e disse que escreveria a
peça, que produziu em três meses. “Sem método nenhum!”, comentou naquela
entrevista: “Simplesmente me sentei e escrevi”.
E, realmente, encenada
pela primeira vez por Jürgen Gosch em Zurich, em dezembro de 2006, a peça foi
um sucesso – que se repetiu em diversas partes do mundo: Inglaterra, Estados
Unidos (diversas encenações), Espanha, Eslovênia, Croácia, Romênia, Irlanda,
Porto Rico... Foi considerada, aliás, uma das mais aclamadas e populares peças
teatrais dos últimos dez anos. Em fevereiro de 2009 uma versão americana foi
encenada na Broadway e, recentemente, também com sucesso, uma encenação
brasileira foi feita pelo diretor Emílio de Mello, com Deborah Evelyn, Paulo
Betti, Julia Lemmertz e Orã Figueiredo fazendo os papéis.
Inevitáveis questões morais –
Quando Roman
Polanski resolveu transformá-la em filme, críticos fizeram menção ao fato de
ser o diretor polonês, há muitos anos, considerado foragido nos EUA, acusado de
seis crimes (inclusive o estupro de uma menina de 13 anos) e correndo o alto
risco de ser preso se pusesse os pés no país. Como poderia ele ser o coautor do
roteiro e o diretor de uma obra como essa, disseram, que denuncia haver nas
pessoas, por trás do verniz civilizatório que ostentamos o tempo todo, um
íntimo que seria nosso verdadeiro Self, muito mais real e totalmente desprovido
de civilidade e educação?
Mas, em sua
entrevista, Yasmina minimiza a importância dessa interpretação: “Não me deixo
levar por escrúpulos”, foi sua resposta a isso. “De fato, me senti muito bem
escrevendo o roteiro com ele, porque somos idênticos. Neste trabalho, não
discutimos ‘significados’, discutimos ‘instintos’.” E, em outra ocasião, complementando essa
visão, ela declarou: “Não me interesso em saber o que eles [os personagens]
foram quando crianças, nem por psicanálise. Escrevo de forma totalmente
instintiva, trabalhando do mesmo modo que um pintor: quando pinta o retrato de
alguém, o pintor não está preocupado em saber como essa pessoa foi quando
criança – ele pinta aquilo que vê.”
Mas, as coisas
não são tão simples assim, de fato: vale a pena observar que, no fundo, a contradição
atinge, além de Polanski, a própria Yasmina, que em outra ocasião declarou: “O
teatro é um espelho que reflete agudamente o que é a sociedade. Os grandes
dramaturgos são todos moralistas”. Ora, nesse caso, a obra, ao contrário da
afirmação anterior, não está isenta de algum sentido ético e, nesse caso, o
relato da perda completa das estribeiras pelos dois casais de “O deus da
carnificina” é, sim, uma denúncia sobre a amoralidade que se encontra por debaixo
da superfície das regras sociais. E, nesse caso – o que é muito interessante
aqui – o tal “deus”, anunciando e declarando a veracidade desta “carnificina”,
de fato encarna muito mais nitidamente o papel de um “demônio” produzindo o Mal
do que de um “deus” (tal como o costumamos entender) em sua infinita Bondade.
Os papéis sociais como grilhões –
Feita essa
longa introdução, vejamos por que esse filme nos interessa aqui: no módulo
sobre Transcendentalidade e Sentido da Vida, do OPUS 21, discutimos um texto do
sociólogo alemão Peter L. Berger, em que ele recorre a Sartre e Heidegger para
mostrar que somos totalmente presos aos ditames da sociedade em que vivemos,
que nossos comportamentos não são de fato livres, mas fortemente orientados
pelos papéis sociais de que estamos investidos – e, finalmente, que nem sequer percebemos
isso, passando ao largo de qualquer exercício de consciência e real liberdade.
Berger deixa claro, entretanto, o caráter paradoxal desse fenômeno, porque esse
nosso aprisionamento pelas convenções da sociedade, ao mesmo tempo em que nos
restringe, nos equilibra e orienta em nossos atos, permitindo que nos
aquietemos e controlemos nossa angústia de viver.
Essa questão
vem à tona neste filme, em que os papéis e convenções sociais aberta e orgulhosamente
ostentados pelos quatro personagens no início vão sendo inexoravelmente
demolidos em seu desenrolar, culminando por jazer completamente estilhaçados no
chão, ao final.
Michael e Penélope,
por exemplo, parecem formar um casal progressista, consciente e sensível às
dificuldades por que passam as pessoas no mundo atual. A professora Penélope
mostra-se ciosa das misérias da África, enquanto Michael sente como uma
realização pessoal o fato de trabalhar diligentemente vendendo material
hidráulico, enquanto cultiva seus uísques e charutos como uma estudada, mas
inocente, veleidade a que se dá o direito. Nancy e Alan são um casal diferente,
“moderno” e voltado para os negócios: ela é uma corretora de investimentos,
enquanto ele, que não larga o celular, é advogado de uma grande empresa
farmacêutica fabricante de um medicamento com efeitos colaterais aparentemente
sérios sobre os pacientes, que a empresa, entretanto, toma o cuidado de ocultar.
No entanto, estando cada qual voltado para sua intensa atividade profissional,
eles mal se comunicam, que dirá tratar um ao outro com carinho.
No decorrer da
história, todos eles, cada qual a seu tempo e motivado pelas estocadas dos
demais, vai perdendo por completo a compostura: cai-lhe a máscara e o que
sobra, visível para os demais (e para o espectador) é nada mais do que a
sombra, nua e crua, do indivíduo incivilizado, grosseiro, egoísta e
aproveitador que – aí está o moralismo da peça – no fundo, todos nós somos, por
trás da tênue aparência de adequação e etiqueta. Duas falas curtas de Alan
dirigindo-se a Penélope, em ocasiões distintas (mas ambas já com a história
adiantada), revelam o âmago do tema tratado. Num momento, diz Alan: “Penelope,
eu acredito no deus da carnificina. O deus cujas regras não têm sido desafiadas
desde tempos imemoriais.” Em outro momento ele afirma: “Moralmente, o que se
espera é que você refreie seus instintos. Mas, há momentos em que você não quer
refreá-los.”
O
desmantelamento de toda aquela polidez e elegância de ambos os casais ganha um
decisivo impulso quando Nancy vomita sobre os livros de arte de Penélope
(especialmente o seu amado catálogo da exposição de Kokoschka!). A partir daí a
coisa degringola em abertas desavenças, agravadas pelo fato de que todos eles
começam a beber – o que faz deteriorar de vez qualquer senso de distinção.
Sobrevêm, então, conflitos declarados do tipo marido vs. mulher; mulheres vs.
homens; conservadores vs. progressistas; em que, no fundo, todos se mostram
moralmente condenáveis: egoístas, gananciosos, desonestos, pretensiosos,
parciais. Só vendo!
Resta uma
questão filosófica, já sugerida mais acima: o que comanda, nos seres humanos,
essa generalizada “carnificina” que supostamente já deveríamos ter aprendido a
neutralizar? Nossa natureza? Caso sim, então somos assim canibalescos, no
fundo? Ou agiríamos assim quando movidos por uma força incontrolável, muito
superior, que nos desestabilizaria? Isto é, existiria de fato um “deus da
carnificina” (mais bem um “demônio”), ao qual estamos inescapavelmente
submetidos, e que ri de nós perversamente, pulverizando nossos esforços para
conviver, sempre que seus caprichos assomam e ele deseja divertir-se!
Nesse caso,
Freud estava redondamente enganado, quando concluiu que a civilização acabaria
forçosamente se sobrepondo à horda primeva pelo fato de o homem não suportar o
sentimento de culpa que o atormentaria por ter matado o pai, primeiro
organizador da sociedade – e procuraria, por causa disso, compensar o pecado
assumindo ele próprio a reorganização, pela via da civilização?
Ao final da
história, para cúmulo da ironia, os dois meninos cuja briga originou todo esse
nó... fazem as pazes!