segunda-feira, 5 de novembro de 2012

HÁ, DE FATO, UM DEUS DA CARNIFICINA?



Por Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, novembro de 2012.

Um filme para ser visto –

Está nas locadoras um filme muito interessante para ser visto por quem participou do 7º. módulo do Programa OPUS 21, sobre “Transcendentalidade e o Sentido da Vida”. Chama-se “O deus da carnificina” (Carnage, no original), passou recentemente no cinema e está disponível nas locadoras. O filme é do consagrado diretor polonês Roman Polanski e nele contracenam quatro atores de primeira linha: Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilly.

No filme, dois casais (Nancy/Alan e Penelope/Michael) se encontram no apartamento destes últimos, para conversar civilizadamente sobre um incidente desagradável: numa briga de garotos, o filho de Nancy e Alan agrediu o outro com uma vara, ferindo-lhe a boca e quebrando-lhe um dente. No início da reunião os quatro participantes parecem solícitos e socialmente muito apropriados, mas pouco a pouco vão revelando facetas completamente diferentes dessa e a reunião acaba num completo desastre social.

O filme, de 2011, é baseado numa peça teatral (Le Dieu du Carnage) da dramaturga, escritora e atriz francesa Yasmina Reza, que, juntamente com Polanski, assina o roteiro. Yasmina a escreveu em 2006, praticamente num só fôlego, numa ocasião em que havia recebido – e recusado, por sentir-se pouco motivada para isso naquele momento – o pedido de um diretor alemão para que escrevesse uma peça especialmente para ele encenar.

As origens e a trajetória da peça –

No entanto, segundo conta a autora numa entrevista, poucos meses depois ela teve uma grande inspiração, a partir de um episódio fortuito: seu filho de 13 ou 14 anos e um amigo brigaram com outro garoto e o amigo do filho teve um dente quebrado. Poucos dias depois, Yasmina encontrou a mãe dele e perguntou como estava o filho. Ela respondeu que ele tinha precisado fazer uma pequena cirurgia, mas estava bem; e completou seu comentário dizendo: “Imagine! Os pais do outro menino nem sequer me telefonaram!” Yasmina relata que seus olhos brilharam nesse momento e ela pensou: “Este é um tema incrível!” Imediatamente telefonou ao diretor alemão e disse que escreveria a peça, que produziu em três meses. “Sem método nenhum!”, comentou naquela entrevista: “Simplesmente me sentei e escrevi”.    

E, realmente, encenada pela primeira vez por Jürgen Gosch em Zurich, em dezembro de 2006, a peça foi um sucesso – que se repetiu em diversas partes do mundo: Inglaterra, Estados Unidos (diversas encenações), Espanha, Eslovênia, Croácia, Romênia, Irlanda, Porto Rico... Foi considerada, aliás, uma das mais aclamadas e populares peças teatrais dos últimos dez anos. Em fevereiro de 2009 uma versão americana foi encenada na Broadway e, recentemente, também com sucesso, uma encenação brasileira foi feita pelo diretor Emílio de Mello, com Deborah Evelyn, Paulo Betti, Julia Lemmertz e Orã Figueiredo fazendo os papéis. 

Inevitáveis questões morais –

Quando Roman Polanski resolveu transformá-la em filme, críticos fizeram menção ao fato de ser o diretor polonês, há muitos anos, considerado foragido nos EUA, acusado de seis crimes (inclusive o estupro de uma menina de 13 anos) e correndo o alto risco de ser preso se pusesse os pés no país. Como poderia ele ser o coautor do roteiro e o diretor de uma obra como essa, disseram, que denuncia haver nas pessoas, por trás do verniz civilizatório que ostentamos o tempo todo, um íntimo que seria nosso verdadeiro Self, muito mais real e totalmente desprovido de civilidade e educação? 

Mas, em sua entrevista, Yasmina minimiza a importância dessa interpretação: “Não me deixo levar por escrúpulos”, foi sua resposta a isso. “De fato, me senti muito bem escrevendo o roteiro com ele, porque somos idênticos. Neste trabalho, não discutimos ‘significados’, discutimos ‘instintos’.”  E, em outra ocasião, complementando essa visão, ela declarou: “Não me interesso em saber o que eles [os personagens] foram quando crianças, nem por psicanálise. Escrevo de forma totalmente instintiva, trabalhando do mesmo modo que um pintor: quando pinta o retrato de alguém, o pintor não está preocupado em saber como essa pessoa foi quando criança – ele pinta aquilo que vê.”

Mas, as coisas não são tão simples assim, de fato: vale a pena observar que, no fundo, a contradição atinge, além de Polanski, a própria Yasmina, que em outra ocasião declarou: “O teatro é um espelho que reflete agudamente o que é a sociedade. Os grandes dramaturgos são todos moralistas”. Ora, nesse caso, a obra, ao contrário da afirmação anterior, não está isenta de algum sentido ético e, nesse caso, o relato da perda completa das estribeiras pelos dois casais de “O deus da carnificina” é, sim, uma denúncia sobre a amoralidade que se encontra por debaixo da superfície das regras sociais. E, nesse caso – o que é muito interessante aqui – o tal “deus”, anunciando e declarando a veracidade desta “carnificina”, de fato encarna muito mais nitidamente o papel de um “demônio” produzindo o Mal do que de um “deus” (tal como o costumamos entender) em sua infinita Bondade.

Os papéis sociais como grilhões –

Feita essa longa introdução, vejamos por que esse filme nos interessa aqui: no módulo sobre Transcendentalidade e Sentido da Vida, do OPUS 21, discutimos um texto do sociólogo alemão Peter L. Berger, em que ele recorre a Sartre e Heidegger para mostrar que somos totalmente presos aos ditames da sociedade em que vivemos, que nossos comportamentos não são de fato livres, mas fortemente orientados pelos papéis sociais de que estamos investidos – e, finalmente, que nem sequer percebemos isso, passando ao largo de qualquer exercício de consciência e real liberdade. Berger deixa claro, entretanto, o caráter paradoxal desse fenômeno, porque esse nosso aprisionamento pelas convenções da sociedade, ao mesmo tempo em que nos restringe, nos equilibra e orienta em nossos atos, permitindo que nos aquietemos e controlemos nossa angústia de viver.

Essa questão vem à tona neste filme, em que os papéis e convenções sociais aberta e orgulhosamente ostentados pelos quatro personagens no início vão sendo inexoravelmente demolidos em seu desenrolar, culminando por jazer completamente estilhaçados no chão, ao final.

Michael e Penélope, por exemplo, parecem formar um casal progressista, consciente e sensível às dificuldades por que passam as pessoas no mundo atual. A professora Penélope mostra-se ciosa das misérias da África, enquanto Michael sente como uma realização pessoal o fato de trabalhar diligentemente vendendo material hidráulico, enquanto cultiva seus uísques e charutos como uma estudada, mas inocente, veleidade a que se dá o direito. Nancy e Alan são um casal diferente, “moderno” e voltado para os negócios: ela é uma corretora de investimentos, enquanto ele, que não larga o celular, é advogado de uma grande empresa farmacêutica fabricante de um medicamento com efeitos colaterais aparentemente sérios sobre os pacientes, que a empresa, entretanto, toma o cuidado de ocultar. No entanto, estando cada qual voltado para sua intensa atividade profissional, eles mal se comunicam, que dirá tratar um ao outro com carinho.

No decorrer da história, todos eles, cada qual a seu tempo e motivado pelas estocadas dos demais, vai perdendo por completo a compostura: cai-lhe a máscara e o que sobra, visível para os demais (e para o espectador) é nada mais do que a sombra, nua e crua, do indivíduo incivilizado, grosseiro, egoísta e aproveitador que – aí está o moralismo da peça – no fundo, todos nós somos, por trás da tênue aparência de adequação e etiqueta. Duas falas curtas de Alan dirigindo-se a Penélope, em ocasiões distintas (mas ambas já com a história adiantada), revelam o âmago do tema tratado. Num momento, diz Alan: “Penelope, eu acredito no deus da carnificina. O deus cujas regras não têm sido desafiadas desde tempos imemoriais.” Em outro momento ele afirma: “Moralmente, o que se espera é que você refreie seus instintos. Mas, há momentos em que você não quer refreá-los.”

O desmantelamento de toda aquela polidez e elegância de ambos os casais ganha um decisivo impulso quando Nancy vomita sobre os livros de arte de Penélope (especialmente o seu amado catálogo da exposição de Kokoschka!). A partir daí a coisa degringola em abertas desavenças, agravadas pelo fato de que todos eles começam a beber – o que faz deteriorar de vez qualquer senso de distinção. Sobrevêm, então, conflitos declarados do tipo marido vs. mulher; mulheres vs. homens; conservadores vs. progressistas; em que, no fundo, todos se mostram moralmente condenáveis: egoístas, gananciosos, desonestos, pretensiosos, parciais. Só vendo!

Resta uma questão filosófica, já sugerida mais acima: o que comanda, nos seres humanos, essa generalizada “carnificina” que supostamente já deveríamos ter aprendido a neutralizar? Nossa natureza? Caso sim, então somos assim canibalescos, no fundo? Ou agiríamos assim quando movidos por uma força incontrolável, muito superior, que nos desestabilizaria? Isto é, existiria de fato um “deus da carnificina” (mais bem um “demônio”), ao qual estamos inescapavelmente submetidos, e que ri de nós perversamente, pulverizando nossos esforços para conviver, sempre que seus caprichos assomam e ele deseja divertir-se!

Nesse caso, Freud estava redondamente enganado, quando concluiu que a civilização acabaria forçosamente se sobrepondo à horda primeva pelo fato de o homem não suportar o sentimento de culpa que o atormentaria por ter matado o pai, primeiro organizador da sociedade – e procuraria, por causa disso, compensar o pecado assumindo ele próprio a reorganização, pela via da civilização?

Ao final da história, para cúmulo da ironia, os dois meninos cuja briga originou todo esse nó... fazem as pazes! 

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