sexta-feira, 26 de outubro de 2012

DOIS LEMBRETES PRECIOSOS SOBRE NETWORKING


Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012. 

O caderno “Empregos” de “O Estado de São Paulo” trouxe, dois domingo atrás, uma matéria falando de networking[1], no qual chamam desde logo a atenção duas reflexões feitas por um dos especialistas consultados pela reportagem, José Augusto Minarelli, presidente da Lens & Minarelli e um dos mais experientes e competentes profissionais dessa área: uma de suas reflexões versa sobre a questão da escuta ativa em networking; a outra, sobre a reciprocidade.  

Quanto ao primeiro aspecto, Minarelli menciona um fato que muitas vezes passa despercebido para a maioria das pessoas: a muitos falta a habilidade de simplesmente ouvir a outra pessoa: “Hoje, o que se vê é o ímpeto que as pessoas têm de falar”, ele adverte. “Muitas conversas são disputas de quem quer falar mais.”

Quanto ao segundo aspecto, Minarelli ressalta que, para sua rede de contatos funcionar efetivamente e para que você consiga que outras pessoas contribuam para o que você deseja delas, é necessário que também você esteja pronto a dar contribuições: “É preciso que as relações ocorram em uma via de mão dupla”, lembra ele, “na qual a pessoa pede ajuda e também está disposta a ajudar. É isso que fortalece os laços; é assim que se monta uma rede sólida”.

As advertências de Minarelli não são fortuitas; ao contrário, elas têm profundas raízes nas ciências humanas: no primeiro caso, na psicologia, quando aborda o capítulo da cognição e, neste, o tópico da atenção; no segundo, na antropologia, ao falar da troca e da reciprocidade.  

Sobre a escuta ativa, falta espaço para citar mais de uma entre as muitas referências possíveis – razão por que vamos nos ater apenas ao que diz o psicanalista holandês e professor do Insead, Erik van de Loo: “Quem ouve cuidadosamente o que outra pessoa fala não está apenas recebendo informação”, diz ele, “mas, da mesma forma, procurando continuamente extrair sentido daquilo que ouve. Isto é influenciado por nossa capacidade de entender que o comportamento é causado pelos chamados estados de espírito inobserváveis (sonhos, necessidades, desejos, sentimentos, ideias, esperanças, temores, ilusões etc.) e de reconhecer que o estado de espírito de outra pessoa pode ser diferente do nosso.” [2]

van de Loo chama de “mentalização” a esta capacidade, sugerindo que se trata de uma habilidade cognitiva que inclui também a capacidade de reflexão do indivíduo; e que ainda incorpora (mas vai além) o uso das faculdades da empatia e da intuição. Sobretudo, diz van de Loo, “ouvir outras pessoas pressupõe e incorpora ouvir a si mesmo. O outro, e sua narrativa, ressoa no eu.” [3] Quem ouve o outro, portanto, está ouvindo ao mesmo tempo a si próprio, e os insights que tem sobre si são, no fundo, uma medida de que está, de fato, atento ao que o outro diz.

Quanto ao nosso segundo tema, provavelmente o antropólogo que mais profundamente falou da reciprocidade foi Marcel Mauss, em seu clássico “Ensaio sobre a dádiva” [4]. Nas mais de 100 páginas que compõem esse ensaio, Mauss descreve a obrigação moral de se “dar de volta” quando se recebe algo, como sendo um dever que muitas vezes beira o sagrado, e isso em sociedades tão diversas quanto os samoanos e os maori da Polinésia, os nativos da Nova Caledônia e outros povos melanésios, bem como em sociedades indígenas do território norte-americano. Como se não bastasse, ele recupera o mesmo costume em antigos povos indo-europeus, assim como no direito hindu clássico, nos direitos germânico, celta, chinês e, inclusive, romano. Citando o “Havamál”, um dos velhos poemas do “Eda” escandinavo, Mauss reproduz algumas estrofes, entre as quais esta: “Com armas e vestimentas / os amigos devem se obsequiar; / cada um o sabe por si mesmo. / Os que se dão mutuamente presentes / são amigos por mais tempo / se as coisas conseguem encaminhar bem. // Deve-se ser um amigo / para seu amigo / e retribuir presente por presente; / deve-se ter / riso por riso / e fraude por mentira.” [5]

Na conclusão do ensaio, diz o sociólogo francês: “É possível estender essas observações a nossas sociedades. Uma parte considerável de nossa moral e de nossa própria vida permanece estacionada nessa mesma atmosfera em que dádiva, obrigação e liberdade se misturam.” [6]


[1]   Leandro Costa, “Contatos podem ser chave para a recolocação”, OESP, Cad. “Empregos”, edição de domingo, 7 de outubro de 2012, p. 4.
[2]   Erik van de Loo, “A arte de ouvir”. In: Manfred F. R. Kets de Vries et al. (orgs.), “Experiências e técnicas de coaching”, Porto Alegre/São Paulo, Bookman/Insead, 2009, pp. 269-286 (trad. Raul Rubenich).    
[3]   E. van de Loo, op. cit., p. 284.    
[4]   Marcel Mauss, em “Année Sociologique, 1ª. série, vol. 1, 1925. Reproduzido em Marcel Mauss, “Sociologia e antropologia”, São Paulo, Cosac & Naify, 2003, pp. 185-314 (trad. Paulo Neves).  
[5]   M. Mauss, op. cit., p. 186.  
[6]   M. Mauss, op. cit., p. 294.   

REFLITA COM OS BEATLES SOBRE O PROCESSO DE TRANSIÇÃO


Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.

Com certeza você faz parte de uma legião de pessoas que já ouviram a canção dos Beatles “All my loving”. É muitíssimo provável, também, que você conheça a letra dessa canção, e possa, quem sabe, até cantá-la. Mas, talvez não seja tão provável que você já tenha pensado no que essa letra está dizendo. E, por certo, você jamais imaginou que ela serviria para nos fazer refletir sobre a proposta de transição em três etapas, de William Bridges. Apenas recordando, a letra de “All my loving” diz:  

Close your eyes and I'll kiss you / Tomorrow I'll miss you / Remember I'll always be true / And then while I'm away / I'll write home everyday / And I'll send all my loving to you // I'll pretend that I'm kissing / The lips I am missing / And hope that my dreams will come true / And then while I'm away / I'll write home everyday / And I'll send all my loving to you / All my loving I will send to you / All my loving, darling, I'll be true.[1] 

Só recordando: William Bridges, um dos autores de referência para o programa de aconselhamento de vida e carreira OPUS 21 da Casa do Gestor, nos mostra que o processo de transição se dá em três etapas: (a) o desligamento da pessoa da situação anterior; (b) o enfrentamento de uma zona de transição, em que comumente a pessoa a princípio não sabe o que irá encontrar; e (c) a entrada e adaptação à nova situação.

Agora, vejamos por que “All my loving” pode nos ajudar a pensar no que essas três etapas representam:  

A canção é, como vemos, o enunciado de uma promessa feita por alguém (imaginamos que seja um homem, não também poderia ser uma mulher) que vai partir, deixando no local a pessoa amada. Não sabemos por que o narrador está partindo, aonde vai ou quanto tempo ficará longe – só sabemos que será por um período que ele considera significativo, caso contrário não precisaria prometer que, será fiel e que escreverá todos os dias enquanto estiver fora.

Também não temos na letra da canção qualquer sinal de reação por parte da pessoa que fica: não sabemos se esta sofrerá ou não com a partida do outro, ou mesmo se acredita de fato na fidelidade de quem parte.  

O que sabemos, entretanto, é que esse período passado longe é certamente uma ameaça, em algum grau, para o relacionamento dos dois: a pessoa que parte estará física e mentalmente ocupada com outros estímulos, pessoas e situações, das quais aquela que fica não partilhará. Isso tenderá a gerar algum tipo de dissonância cognitiva na mente de quem parte: por um lado, essa pessoa estará dedicada a novas atividades, com seus pensamentos e sentimentos voltados para o que acontece no novo local; mas, por outro lado, ela terá a mente também voltada para a pessoa que fica, da qual se recordará e de quem sentirá saudade.

Essa divisão psicológica por si só já é bem desgastante e, pelo que se sabe, não costuma ser suportada por longo tempo. Quanto tempo? Não sabemos; mas, dependendo da intensidade do amor que aquele que parte tem por aquele que fica (e vice-versa), e dependendo das experiências que cada um terá enquanto estiverem separados, essa dissonância inicial precisará ser resolvida de uma forma ou de outra, em maior ou menor prazo.

(Lembro agora que, muitos anos atrás, uma tia minha, de casamento marcado para daí a 15 dias no interior de São Paulo, foi diagnosticada com tuberculose e teve de deixar imediatamente a cidade, indo morar em Campos do Jordão por vários meses. O leitor já deve ter imaginado o que aconteceu: com o tempo e a distância, as cartas entre ambos foram escasseando, a relação ente os noivos esfriou, e ele acabou se casando com outra e ela (que felizmente curou-se) casou-se em Campos do Jordão mesmo, constituindo família e vivendo ali por muitos e muitos anos mais. Se os Beatles tivessem vivido e feito suas músicas alguns (muitos) anos antes, certamente minha tia teria sido uma boa candidata a cantar “All may loving” para seu então noivo, quando se viu obrigada a partir de sua cidade para tratar-se.)

Voltando à letra da canção, podemos nos perguntar: a pessoa que está partindo escreverá mesmo todos os dias? Cumprirá sua promessa de ser fiel? Não sabemos. Ela está prestes a ingressar na “zona neutra” de que fala Bridges. Nesse interregno, vivido em terreno desconhecido, ela tanto poderá sentir muito a falta da outra (a ponto de não suportá-la e tudo fazer para retornar o mais breve que puder), como poderá acabar concluindo que seus sentimentos pela outra pessoa estão esmaecendo, pouco a pouco substituídos por novos interesses, que inauguram um novo período em sua vida. Nem Bridges saberia dizer o que acontece num casos desses! “Qui vivra vera”...


[1]   Feche os olhos, vou beijá-la / Amanhã sentirei sua falta / Lembre-se: serei sempre fiel / E enquanto estiver longe / Escreverei todos os dias / E lhe enviarei todo o meu amor // Fingirei estar beijando / Os lábios que me fazem falta / Esperando que meus sonhos se realizem / E enquanto estiver longe / Escreverei todos os dias / E lhe enviarei todo meu amor / Todo meu amor lhe enviarei/ Todo meu amor, querida. Serei fiel. 

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