Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo,
outubro de 2012.
O caderno
“Empregos” de “O Estado de São Paulo” trouxe, dois domingo atrás, uma matéria
falando de networking[1],
no qual chamam desde logo a atenção duas reflexões feitas por um dos
especialistas consultados pela reportagem, José Augusto Minarelli, presidente
da Lens & Minarelli e um dos mais experientes e competentes profissionais
dessa área: uma de suas reflexões versa sobre a questão da escuta ativa em
networking; a outra, sobre a reciprocidade.
Quanto ao
primeiro aspecto, Minarelli menciona um fato que muitas vezes passa
despercebido para a maioria das pessoas: a muitos falta a habilidade de
simplesmente ouvir a outra pessoa:
“Hoje, o que se vê é o ímpeto que as pessoas têm de falar”, ele adverte.
“Muitas conversas são disputas de quem quer falar mais.”
Quanto ao segundo
aspecto, Minarelli ressalta que, para sua rede de contatos funcionar
efetivamente e para que você consiga que outras pessoas contribuam para o que
você deseja delas, é necessário que também você esteja pronto a dar contribuições:
“É preciso que as relações ocorram em uma via de mão dupla”, lembra ele, “na
qual a pessoa pede ajuda e também está disposta a ajudar. É isso que fortalece
os laços; é assim que se monta uma rede sólida”.
As advertências
de Minarelli não são fortuitas; ao contrário, elas têm profundas raízes nas
ciências humanas: no primeiro caso, na psicologia, quando aborda o capítulo da
cognição e, neste, o tópico da atenção; no segundo, na antropologia, ao falar
da troca e da reciprocidade.
Sobre a escuta
ativa, falta espaço para citar mais de uma entre as muitas referências
possíveis – razão por que vamos nos ater apenas ao que diz o psicanalista
holandês e professor do Insead, Erik van de Loo: “Quem ouve cuidadosamente o
que outra pessoa fala não está apenas recebendo informação”, diz ele, “mas, da
mesma forma, procurando continuamente extrair sentido daquilo que ouve. Isto é
influenciado por nossa capacidade de entender que o comportamento é causado
pelos chamados estados de espírito
inobserváveis (sonhos, necessidades, desejos, sentimentos, ideias,
esperanças, temores, ilusões etc.) e de reconhecer que o estado de espírito de
outra pessoa pode ser diferente do nosso.” [2]
van de Loo
chama de “mentalização” a esta capacidade, sugerindo que se trata de uma
habilidade cognitiva que inclui também a capacidade de reflexão do indivíduo; e
que ainda incorpora (mas vai além) o uso das faculdades da empatia e da intuição.
Sobretudo, diz van de Loo, “ouvir outras pessoas pressupõe e incorpora ouvir a
si mesmo. O outro, e sua narrativa, ressoa no eu.” [3] Quem ouve o outro, portanto, está
ouvindo ao mesmo tempo a si próprio, e os insights que tem sobre si são, no
fundo, uma medida de que está, de fato, atento ao que o outro diz.
Quanto ao nosso
segundo tema, provavelmente o antropólogo que mais profundamente falou da reciprocidade
foi Marcel Mauss, em seu clássico “Ensaio sobre a dádiva” [4]. Nas mais de 100 páginas que compõem esse
ensaio, Mauss descreve a obrigação moral de se “dar de volta” quando se recebe
algo, como sendo um dever que muitas vezes beira o sagrado, e isso em
sociedades tão diversas quanto os samoanos e os maori da Polinésia, os nativos
da Nova Caledônia e outros povos melanésios, bem como em sociedades indígenas
do território norte-americano. Como se não bastasse, ele recupera o mesmo
costume em antigos povos indo-europeus, assim como no direito hindu clássico, nos
direitos germânico, celta, chinês e, inclusive, romano. Citando o “Havamál”, um
dos velhos poemas do “Eda” escandinavo, Mauss reproduz algumas estrofes, entre
as quais esta: “Com armas e vestimentas / os amigos devem se obsequiar; / cada
um o sabe por si mesmo. / Os que se dão mutuamente presentes / são amigos por
mais tempo / se as coisas conseguem encaminhar bem. // Deve-se ser um amigo /
para seu amigo / e retribuir presente por presente; / deve-se ter / riso por
riso / e fraude por mentira.” [5]
Na conclusão do
ensaio, diz o sociólogo francês: “É possível estender essas observações a
nossas sociedades. Uma parte considerável de nossa moral e de nossa própria
vida permanece estacionada nessa mesma atmosfera em que dádiva, obrigação e
liberdade se misturam.” [6]
[1] Leandro Costa, “Contatos podem ser chave para a recolocação”, OESP,
Cad. “Empregos”, edição de domingo, 7 de outubro de 2012, p. 4.
[2] Erik van de Loo, “A arte de ouvir”. In: Manfred F. R. Kets de
Vries et al. (orgs.),
“Experiências e técnicas de coaching”, Porto Alegre/São Paulo, Bookman/Insead,
2009, pp. 269-286 (trad. Raul Rubenich).
[4] Marcel Mauss, em “Année Sociologique, 1ª. série, vol. 1, 1925.
Reproduzido em Marcel Mauss, “Sociologia e antropologia”, São Paulo, Cosac
& Naify, 2003, pp. 185-314 (trad. Paulo Neves).

