Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo,
outubro de 2012.
Com certeza
você faz parte de uma legião de pessoas que já ouviram a canção dos Beatles “All
my loving”. É muitíssimo provável, também, que você conheça a letra dessa
canção, e possa, quem sabe, até cantá-la. Mas, talvez não seja tão provável que
você já tenha pensado no que essa letra está dizendo. E, por certo, você jamais
imaginou que ela serviria para nos fazer refletir sobre a proposta de transição
em três etapas, de William Bridges. Apenas recordando, a letra de “All my
loving” diz:
Close your eyes and I'll kiss you / Tomorrow I'll miss
you / Remember I'll always be true / And then while I'm away / I'll write home
everyday / And I'll send all my loving to you // I'll pretend that I'm kissing
/ The lips I am missing / And hope that my dreams will come true / And then
while I'm away / I'll write home everyday / And I'll send all my loving to you
/ All my loving I will send to you / All my loving, darling, I'll be true.[1]
Só recordando:
William Bridges, um dos autores de referência para o programa de aconselhamento
de vida e carreira OPUS 21 da Casa do Gestor, nos mostra que o processo de
transição se dá em três etapas: (a) o desligamento da pessoa da situação
anterior; (b) o enfrentamento de uma zona de transição, em que comumente a
pessoa a princípio não sabe o que irá encontrar; e (c) a entrada e adaptação à
nova situação.
Agora, vejamos
por que “All my loving” pode nos ajudar a pensar no que essas três etapas
representam:
A canção é,
como vemos, o enunciado de uma promessa feita por alguém (imaginamos que seja
um homem, não também poderia ser uma mulher) que vai partir, deixando no local a
pessoa amada. Não sabemos por que o narrador está partindo, aonde vai ou quanto
tempo ficará longe – só sabemos que será por um período que ele considera
significativo, caso contrário não precisaria prometer que, será fiel e que escreverá
todos os dias enquanto estiver fora.
Também não
temos na letra da canção qualquer sinal de reação por parte da pessoa que fica:
não sabemos se esta sofrerá ou não com a partida do outro, ou mesmo se acredita
de fato na fidelidade de quem parte.
O que sabemos,
entretanto, é que esse período passado longe é certamente uma ameaça, em algum
grau, para o relacionamento dos dois: a pessoa que parte estará física e
mentalmente ocupada com outros estímulos, pessoas e situações, das quais aquela
que fica não partilhará. Isso tenderá a gerar algum tipo de dissonância
cognitiva na mente de quem parte: por um lado, essa pessoa estará dedicada a
novas atividades, com seus pensamentos e sentimentos voltados para o que
acontece no novo local; mas, por outro lado, ela terá a mente também voltada
para a pessoa que fica, da qual se recordará e de quem sentirá saudade.
Essa divisão
psicológica por si só já é bem desgastante e, pelo que se sabe, não costuma ser
suportada por longo tempo. Quanto tempo? Não sabemos; mas, dependendo da
intensidade do amor que aquele que parte tem por aquele que fica (e vice-versa),
e dependendo das experiências que cada um terá enquanto estiverem separados,
essa dissonância inicial precisará ser resolvida de uma forma ou de outra, em
maior ou menor prazo.
(Lembro agora
que, muitos anos atrás, uma tia minha, de casamento marcado para daí a 15 dias
no interior de São Paulo, foi diagnosticada com tuberculose e teve de deixar
imediatamente a cidade, indo morar em Campos do Jordão por vários meses. O
leitor já deve ter imaginado o que aconteceu: com o tempo e a distância, as
cartas entre ambos foram escasseando, a relação ente os noivos esfriou, e ele
acabou se casando com outra e ela (que felizmente curou-se) casou-se em Campos
do Jordão mesmo, constituindo família e vivendo ali por muitos e muitos anos
mais. Se os Beatles tivessem vivido e feito suas músicas alguns (muitos) anos
antes, certamente minha tia teria sido uma boa candidata a cantar “All may
loving” para seu então noivo, quando se viu obrigada a partir de sua cidade
para tratar-se.)
Voltando à
letra da canção, podemos nos perguntar: a pessoa que está partindo escreverá
mesmo todos os dias? Cumprirá sua promessa de ser fiel? Não sabemos. Ela está
prestes a ingressar na “zona neutra” de que fala Bridges. Nesse interregno,
vivido em terreno desconhecido, ela tanto poderá sentir muito a falta da outra
(a ponto de não suportá-la e tudo fazer para retornar o mais breve que puder),
como poderá acabar concluindo que seus sentimentos pela outra pessoa estão
esmaecendo, pouco a pouco substituídos por novos interesses, que inauguram um
novo período em sua vida. Nem Bridges saberia dizer o que acontece num casos
desses! “Qui vivra vera”...
[1] Feche os
olhos, vou beijá-la / Amanhã sentirei sua falta / Lembre-se: serei sempre fiel
/ E enquanto estiver longe / Escreverei todos os dias / E lhe enviarei todo o
meu amor // Fingirei estar beijando / Os lábios que me fazem falta / Esperando
que meus sonhos se realizem / E enquanto estiver longe / Escreverei todos os
dias / E lhe enviarei todo meu amor / Todo meu amor lhe enviarei/ Todo meu amor,
querida. Serei fiel.
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