Marco A. Oliveira, consultor e
diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo,
outubro de 2012.
No programa
OPUS 21 da Casa do Gestor, consideramos a divisão da vida adulta em quatro
etapas, do ponto de vista do exercício profissional, conforme foi proposto pela
socióloga americana Gail Sheehy: as fases Preparatória (dos 18 aos 30 anos de
idade), da Plenitude (30 a 45 anos), da Senioridade (45-65 anos) e da Sabedoria
(acima dos 65 anos).
O modelo de
aconselhamento de carreira que utilizamos no OPUS 21 baseia-se na constatação
empírica de que, a partir do início da fase da Senioridade, vai se tornando cada
vez mais difícil para o trabalhador manter-se ativo no mercado de trabalho mediante
o vínculo com uma única empresa, por meio de um contrato de trabalho
convencional em tempo integral. O que se constata é que, em grande parte dos
casos, o profissional passa, a partir de então, a assumir projetos mais flexíveis,
de duração mais breve e baseados em vínculos mais tênues com seus contratantes.
Se isso pode ser assustador para alguns, pode também significar para outros um
grau de liberdade e uma oportunidade de realização profissional que jamais
teriam experimentado de outra forma.
No portfólio de
trabalho que então passa a orientar a vida profissional dessa pessoa, vários
“mini-empregos” se sucedem ou acontecem simultaneamente, com a particularidade
de que, quase sempre, nenhum deles é suficiente para proporcionar uma
remuneração condizente com suas expectativas. Ainda assim, o trabalhador poderá
obter ganhos plenamente satisfatórios (e, não raro, maiores do que antes) no
somatório dos trabalhos incluídos em seu portfólio. Embora na prática isto seja
mais fácil de dizer do que de fazer, espera-se que essa mudança acabe sendo encarada
com naturalidade pelo trabalhador, uma vez que se tornará uma regra, em vez da exceção,
em sua trajetória profissional daí por diante.
É evidente que,
para ser capaz de desenvolver um tal portfólio, o trabalhador precisará de desenvolver
continuamente novas competências profissionais, bem como contar com ativos que
apoiem sua busca de oportunidades de trabalho – entre os quais é fundamental manter
um network que lhe abra possibilidades concretas de atuação no mercado. Isso,
que tampouco é fácil de fazer, requer que o trabalhador adote uma nova atitude profissional,
ressaltada por permanente desenvolvimento pessoal e profissional e um agudo
interesse pelas tendências e transformações por que passe seu contexto de
trabalho.
Um caso
simples, entre muitos disponíveis, pode nos servir de exemplo: referimo-nos a
uma reportagem publicada recentemente no jornal “O Estado de São Paulo”(*),
dando conta de que um publicitário de 37 anos de idade decidiu “trocar a
estabilidade de uma carreira pelas incertezas da profissão de escritor”.
Segundo explica a notícia, ele deixou seu emprego regular na agência, passando,
entretanto, a prestar serviços a ela como consultor – enquanto ao mesmo tempo começou a dedicar-se a um site que lançou,
chamado Loja de Histórias. Ali, sua proposta consiste em redigir e postar pequenos
contos ou crônicas inspirados em fotos que os frequentadores do site lhe
enviam. Sua meta era a escrever um texto por dia; porém, em poucos dias ele já recebeu
quase 300 fotos, o ou levou à conclusão de que teria de acelerar mais sua produção
literária.
Como se pode
ver, trata-se de um projeto bastante original, que demonstra um alto grau de sensibilidade
pessoal por parte de seu criador. Ainda assim, a notícia não fala sobre algo
muito importante: Como pretende esse publicitário ganhar dinheiro com sua nova
atividade? Uma primeira sugestão poderia ser esta: ele estaria de fato se lançando
como escritor, planejando publicar em breve um livro de contos ou crônicas
baseados em seus textos sobre as fotos recebidas.
Entretanto, há
outras possibilidades mais: além de estar fazendo aquilo que gosta, esse
publicitário está também aprendendo (e de forma quase imperceptível) sobre
crítica fotográfica – o que poderá lhe abrir, mais tarde, outras possibilidades
concreta de trabalho e remuneração. Porém, também seu trabalho como
publicitário talvez venha a ter um crescimento, uma vez que ele está produzindo
peças literárias de ficção sobre os temas das fotografias recebidas, o que se aproxima
bastante do que faz um publicitário que cria uma peça para uma campanha. Finalmente,
não nos esqueçamos de que o “storytelling” é um recurso cada vez mais bem
aceito e praticado em marketing, publicidade e branding, e que também nessa
área ele está aprofundando sua expertise.
E, quem sabe,
pode ser até mesmo que seu site venha a ganhar uma tal projeção e receba tal
quantidade diária de visitantes que algumas empresas se interessem em
patrociná-lo, usando-o como veículo de publicidade online. Deixamos para o
leitor a tarefa de imaginar outras possíveis incorporações ao portfólio de
trabalho desse publicitário.
(*) Edison Veiga, “Você tira uma foto e ele inventa uma história”, “O
Estado de São Paulo”, caderno “Cidades/Metrópole”, edição de domingo, 7 de
outubro de 2012, p. C4.
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