quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CRIANDO SEU PORTFÓLIO DE TRABALHO


Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.

No programa OPUS 21 da Casa do Gestor, consideramos a divisão da vida adulta em quatro etapas, do ponto de vista do exercício profissional, conforme foi proposto pela socióloga americana Gail Sheehy: as fases Preparatória (dos 18 aos 30 anos de idade), da Plenitude (30 a 45 anos), da Senioridade (45-65 anos) e da Sabedoria (acima dos 65 anos).

O modelo de aconselhamento de carreira que utilizamos no OPUS 21 baseia-se na constatação empírica de que, a partir do início da fase da Senioridade, vai se tornando cada vez mais difícil para o trabalhador manter-se ativo no mercado de trabalho mediante o vínculo com uma única empresa, por meio de um contrato de trabalho convencional em tempo integral. O que se constata é que, em grande parte dos casos, o profissional passa, a partir de então, a assumir projetos mais flexíveis, de duração mais breve e baseados em vínculos mais tênues com seus contratantes. Se isso pode ser assustador para alguns, pode também significar para outros um grau de liberdade e uma oportunidade de realização profissional que jamais teriam experimentado de outra forma.

No portfólio de trabalho que então passa a orientar a vida profissional dessa pessoa, vários “mini-empregos” se sucedem ou acontecem simultaneamente, com a particularidade de que, quase sempre, nenhum deles é suficiente para proporcionar uma remuneração condizente com suas expectativas. Ainda assim, o trabalhador poderá obter ganhos plenamente satisfatórios (e, não raro, maiores do que antes) no somatório dos trabalhos incluídos em seu portfólio. Embora na prática isto seja mais fácil de dizer do que de fazer, espera-se que essa mudança acabe sendo encarada com naturalidade pelo trabalhador, uma vez que se tornará uma regra, em vez da exceção, em sua trajetória profissional daí por diante.

É evidente que, para ser capaz de desenvolver um tal portfólio, o trabalhador precisará de desenvolver continuamente novas competências profissionais, bem como contar com ativos que apoiem sua busca de oportunidades de trabalho – entre os quais é fundamental manter um network que lhe abra possibilidades concretas de atuação no mercado. Isso, que tampouco é fácil de fazer, requer que o trabalhador adote uma nova atitude profissional, ressaltada por permanente desenvolvimento pessoal e profissional e um agudo interesse pelas tendências e transformações por que passe seu contexto de trabalho.

Um caso simples, entre muitos disponíveis, pode nos servir de exemplo: referimo-nos a uma reportagem publicada recentemente no jornal “O Estado de São Paulo”(*), dando conta de que um publicitário de 37 anos de idade decidiu “trocar a estabilidade de uma carreira pelas incertezas da profissão de escritor”. Segundo explica a notícia, ele deixou seu emprego regular na agência, passando, entretanto, a prestar serviços a ela como consultor – enquanto ao mesmo  tempo começou a dedicar-se a um site que lançou, chamado Loja de Histórias. Ali, sua proposta consiste em redigir e postar pequenos contos ou crônicas inspirados em fotos que os frequentadores do site lhe enviam. Sua meta era a escrever um texto por dia; porém, em poucos dias ele já recebeu quase 300 fotos, o ou levou à conclusão de que teria de acelerar mais sua produção literária.

Como se pode ver, trata-se de um projeto bastante original, que demonstra um alto grau de sensibilidade pessoal por parte de seu criador. Ainda assim, a notícia não fala sobre algo muito importante: Como pretende esse publicitário ganhar dinheiro com sua nova atividade? Uma primeira sugestão poderia ser esta: ele estaria de fato se lançando como escritor, planejando publicar em breve um livro de contos ou crônicas baseados em seus textos sobre as fotos recebidas.

Entretanto, há outras possibilidades mais: além de estar fazendo aquilo que gosta, esse publicitário está também aprendendo (e de forma quase imperceptível) sobre crítica fotográfica – o que poderá lhe abrir, mais tarde, outras possibilidades concreta de trabalho e remuneração. Porém, também seu trabalho como publicitário talvez venha a ter um crescimento, uma vez que ele está produzindo peças literárias de ficção sobre os temas das fotografias recebidas, o que se aproxima bastante do que faz um publicitário que cria uma peça para uma campanha. Finalmente, não nos esqueçamos de que o “storytelling” é um recurso cada vez mais bem aceito e praticado em marketing, publicidade e branding, e que também nessa área ele está aprofundando sua expertise.

E, quem sabe, pode ser até mesmo que seu site venha a ganhar uma tal projeção e receba tal quantidade diária de visitantes que algumas empresas se interessem em patrociná-lo, usando-o como veículo de publicidade online. Deixamos para o leitor a tarefa de imaginar outras possíveis incorporações ao portfólio de trabalho desse publicitário.   


(*)  Edison Veiga, “Você tira uma foto e ele inventa uma história”, “O Estado de São Paulo”, caderno “Cidades/Metrópole”, edição de domingo, 7 de outubro de 2012, p. C4.   

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