Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.
Seres humanos de grande
talento e importância para todos nós morreram por estes dias: Eric Hobsbawm, o
maior historiador do século 20; Autran Dourado, um senhor escritor... Porém,
entre esses infaustos acontecimentos, nenhum teve tanto impacto sobre os
brasileiros quanto a morte de Hebe Camargo, a “rainha do talk-show” na TV. Hebe
sentia-se absolutamente integrada com o que fazia, e isso transbordava o tempo
todo para o expectador, em cada palavra, gesto, olhar, riso ou movimento da
apresentadora.
Foi essa uma das
principais razões por que era adorada por tanta gente simples – gente que não
teve, e nem tem, refresco algum no trabalho que faz e na vida que leva: tarefas
duras e desagradáveis, longas horas de esforço, chefes intolerantes, salário
insuficiente, tempo nenhum de descanso, transporte deficiente e cansativo,
alimentação precária, medo permanente da violência... são essas as condições de
vida enfrentadas pelas pessoas que amavam e admiravam Hebe, que era, para elas,
“alguém como nós” e que, no entanto, soube construir seu caminho e realizar-se
plenamente no que fazia.
É simplesmente admirável uma
pessoa que consegue encontrar a carreira profissional perfeita e a vive
intensamente – uma descrição que cabe como uma luva para o perfil de Hebe.
P
Levando isso em conta, e
tentando de alguma forma homenagear Hebe, fui buscar outro exemplo paradigmático
e semelhante de uma apresentadora de talk-show (desta vez no rádio) que dá
testemunho pessoal do acerto da tese defendida pelo psicólogo Mark L. Savickas,
de que o Self de uma pessoa, com sua (com perdão da palavra!) “biograficidade”
formada desde a infância, é decisivo na construção de uma identidade exitosa e
perfeitamente integrada numa carreira profissional de sucesso.
Dra. Laura é o pseudônimo
de Laura Schlessinger (Ph.D.), uma ex-terapeuta de famílias que se tornou um
ícone do rádio norte-americano nos anos 1990, atingindo um audiência de nada
menos que 20 milhões de pessoas. Dona, portanto, de um programa de absoluto
sucesso, em que seus consulentes iam a ela em busca de soluções para sérios
problemas pessoais, a Dra. Laura jamais os decepcionou: ao contrário lhes fazia
ponderações importantes, que levavam essas pessoas a refletir e a se tornarem
um pouco mais donas de suas vidas.
Numa entrevista dada em
1998 à revista “Psychology Today”(*), a Dra.
Laura fazer breves revelações pessoais que, com certeza, levariam Mark L.
Savickas a sentir-se orgulhoso da teoria que formulou. Permiti-me traduzir aqui
um pequeno trecho dessa entrevista:
P
“Pergunta – Quem eram seus heróis?
Resposta
– Victor
Frankl, Harriet Tubman e uma de minhas antigas pacientes, cujo nome, por razões
óbvias, não posso revelar. Harriet Tubman foi uma escrava, nunca conheceu seus
pais e foi vendida inúmeras vezes, como se fosse um saco de batatas. Espancada,
era tratada pior que os animais da fazenda. E, a despeito dessa experiência
toda, foi incrivelmente corajosa: cuidou de centenas de escravos chegados ao
Norte do país. Victor Frankl passou por cinco
campos de concentração! E esta minha paciente revelou-me a tenacidade que pode
ter o espírito humano quaisquer que sejam as circunstâncias. Se essas pessoas
conseguiram reerguer-se acima do abuso, do Holocausto e da escravidão, então
nossos lamúrias estão muito mal colocados. Sempre que tenho vontade de me
queixar de alguma coisa penso nesses três seres humanos.
Pergunta
– O que
você gostaria de estar fazendo daqui a cinco anos?
Resposta
– A
mesma coisa que agora. Vou fazer isto até o dia da minha morte. Vou lhe contar
algo pessoal: quando criança, eu já queria fazer alguma coisa que fizesse
diferença. Mas eu não contava isso a ninguém, porque achava que as pessoas
iriam pensar que eu não era normal. As outras meninas só falavam em arranjar
namorado ou ter um carro, enquanto eu ficava cismando sobre o porquê de estar
viva, o que a vida significa. A psiquiatria pode explicar certas coisas, mas
não consegue dar respostas a questões como o propósito ou o sentido da vida. E
eu continuei pensando nisso. Hoje faço exatamente o que queria fazer; e o que
faço não é para mim um trabalho, mas uma missão pessoal. Sinto-me, aqui, em
minha casa – posso até sentir o cheiro do pão no forno. Portanto, essa pergunta
sobre o que eu vou fazer depois não se aplica, porque nega a importância do que
estou fazendo hoje. Não há depois. O que há, em meu caso, é mais do mesmo.”
Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.
(*) “Dr. Laura wants you to stop
whining”, “Psychology Today”, edição de janeiro/fevereiro de 1998, pp. 28-30,
64-65 e 77.
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