quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Hebe e Também a Dra. Laura


Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.



Seres humanos de grande talento e importância para todos nós morreram por estes dias: Eric Hobsbawm, o maior historiador do século 20; Autran Dourado, um senhor escritor... Porém, entre esses infaustos acontecimentos, nenhum teve tanto impacto sobre os brasileiros quanto a morte de Hebe Camargo, a “rainha do talk-show” na TV. Hebe sentia-se absolutamente integrada com o que fazia, e isso transbordava o tempo todo para o expectador, em cada palavra, gesto, olhar, riso ou movimento da apresentadora.

Foi essa uma das principais razões por que era adorada por tanta gente simples – gente que não teve, e nem tem, refresco algum no trabalho que faz e na vida que leva: tarefas duras e desagradáveis, longas horas de esforço, chefes intolerantes, salário insuficiente, tempo nenhum de descanso, transporte deficiente e cansativo, alimentação precária, medo permanente da violência... são essas as condições de vida enfrentadas pelas pessoas que amavam e admiravam Hebe, que era, para elas, “alguém como nós” e que, no entanto, soube construir seu caminho e realizar-se plenamente no que fazia.

É simplesmente admirável uma pessoa que consegue encontrar a carreira profissional perfeita e a vive intensamente – uma descrição que cabe como uma luva para o perfil de Hebe.

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Levando isso em conta, e tentando de alguma forma homenagear Hebe, fui buscar outro exemplo paradigmático e semelhante de uma apresentadora de talk-show (desta vez no rádio) que dá testemunho pessoal do acerto da tese defendida pelo psicólogo Mark L. Savickas, de que o Self de uma pessoa, com sua (com perdão da palavra!) “biograficidade” formada desde a infância, é decisivo na construção de uma identidade exitosa e perfeitamente integrada numa carreira profissional de sucesso.

Dra. Laura é o pseudônimo de Laura Schlessinger (Ph.D.), uma ex-terapeuta de famílias que se tornou um ícone do rádio norte-americano nos anos 1990, atingindo um audiência de nada menos que 20 milhões de pessoas. Dona, portanto, de um programa de absoluto sucesso, em que seus consulentes iam a ela em busca de soluções para sérios problemas pessoais, a Dra. Laura jamais os decepcionou: ao contrário lhes fazia ponderações importantes, que levavam essas pessoas a refletir e a se tornarem um pouco mais donas de suas vidas.

Numa entrevista dada em 1998 à revista “Psychology Today”(*), a Dra. Laura fazer breves revelações pessoais que, com certeza, levariam Mark L. Savickas a sentir-se orgulhoso da teoria que formulou. Permiti-me traduzir aqui um pequeno trecho dessa entrevista:
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Pergunta – Quem eram seus heróis?

Resposta – Victor Frankl, Harriet Tubman e uma de minhas antigas pacientes, cujo nome, por razões óbvias, não posso revelar. Harriet Tubman foi uma escrava, nunca conheceu seus pais e foi vendida inúmeras vezes, como se fosse um saco de batatas. Espancada, era tratada pior que os animais da fazenda. E, a despeito dessa experiência toda, foi incrivelmente corajosa: cuidou de centenas de escravos chegados ao Norte do país. Victor Frankl passou por cinco campos de concentração! E esta minha paciente revelou-me a tenacidade que pode ter o espírito humano quaisquer que sejam as circunstâncias. Se essas pessoas conseguiram reerguer-se acima do abuso, do Holocausto e da escravidão, então nossos lamúrias estão muito mal colocados. Sempre que tenho vontade de me queixar de alguma coisa penso nesses três seres humanos.

Pergunta – O que você gostaria de estar fazendo daqui a cinco anos?

Resposta – A mesma coisa que agora. Vou fazer isto até o dia da minha morte. Vou lhe contar algo pessoal: quando criança, eu já queria fazer alguma coisa que fizesse diferença. Mas eu não contava isso a ninguém, porque achava que as pessoas iriam pensar que eu não era normal. As outras meninas só falavam em arranjar namorado ou ter um carro, enquanto eu ficava cismando sobre o porquê de estar viva, o que a vida significa. A psiquiatria pode explicar certas coisas, mas não consegue dar respostas a questões como o propósito ou o sentido da vida. E eu continuei pensando nisso. Hoje faço exatamente o que queria fazer; e o que faço não é para mim um trabalho, mas uma missão pessoal. Sinto-me, aqui, em minha casa – posso até sentir o cheiro do pão no forno. Portanto, essa pergunta sobre o que eu vou fazer depois não se aplica, porque nega a importância do que estou fazendo hoje. Não há depois. O que há, em meu caso, é mais do mesmo.”
Marco A. Oliveira, consultor e diretor da OBI Consultores & Editores Ltda. e da Casa do Gestor. São Paulo, outubro de 2012.




(*) “Dr. Laura wants you to stop whining”, “Psychology Today”, edição de janeiro/fevereiro de 1998, pp. 28-30, 64-65 e 77.  

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